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Por Júlia Borges, Diretora Executiva do Instituto Sol
Todos os anos, quando o Ideb é divulgado, o debate público volta os olhos para o Ensino Médio, historicamente a etapa mais frágil da Educação Básica brasileira. Em 2025, não foi diferente. O país alcançou os melhores resultados da série histórica nas três etapas avaliadas. Ainda assim, na rede pública, o Ensino Médio continua apresentando o menor índice: 4,3, contra 5,0 nos anos finais e 6,1 nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
O avanço merece ser comemorado, mas os próprios números revelam um padrão que deveria chamar nossa atenção: os resultados são progressivamente mais baixos nas etapas mais avançadas da Educação Básica. Talvez, então, estejamos tentando resolver no Ensino Médio um problema que começa muito antes, especialmente nos anos finais do EnsinoFundamental, entre o 6º e o 9º ano.
O próprio Saeb, avaliação que alimenta o cálculo do Ideb, ajuda a dimensionar esse gargalo. Na rede pública, 38,3% dos estudantes terminam o 9º ano com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e apenas 18,8% em Matemática. Ao final do Ensino Médio, o cenário nesta última disciplina é ainda mais crítico: somente 8,5% dos estudantes alcançam o nível adequado de aprendizagem.
É com essas lacunas que muitos estudantes chegam à 1ª série do Ensino Médio. Esperar que, em apenas três anos, essa etapa consiga não apenas recuperar aprendizagens que ficaram para trás, mas também avançar sobre conteúdos cada vez mais complexos, é exigir dela uma tarefa que dificilmente poderá cumprir sozinha.
Isso não significa minimizar os desafios próprios do Ensino Médio, que são muitos e exigem respostas específicas. Mas concentrar nossas soluções apenas nessa etapa significa enfrentar parte do problema quando ele já se agravou.
Para além da aprendizagem, há uma segunda dimensão que precisa entrar nessa discussão: o sentido que o jovem encontra na escola. Os anos finais do Ensino Fundamental coincidem com o início da adolescência, uma fase de profundas transformações em que a própria experiência escolar muda. Aumentam a complexidade dos conteúdos e o número de professores, enquanto diminui o vínculo com um único educador de referência. É também quando o jovem começa a se perguntar sobre seu futuro, seus interesses eos caminhos que poderá seguir.
A PNAD Educação, divulgada pelo IBGE em 2026, ajuda a dimensionar esse desafio. Entre os jovens de 14 a 29 anos que não concluíram o Ensino Médio e abandonaram a escola ou nunca chegaram a frequentá-la, 25,6% apontam a falta de interesse em estudar como principal motivo. O dado chama atenção para uma dimensão que não pode ser ignorada: garantir permanência também passa por fazer com que a escola tenha sentido para quem está nela.
Essa questão ganha ainda mais importância diante das escolhas que o jovem precisa fazer ao chegar ao Ensino Médio. Entre diferentes possibilidades de formação e itinerários, o sistema passa a exigir maior autonomia justamente em um momento em que muitos estudantes ainda tiveram poucas oportunidades de conhecer seus próprios interesses, as possibilidades disponíveis e o que cada caminho pode oferecer.
Um jovem que chega ao Ensino Médio com lacunas importantes de aprendizagem e sem enxergar por que aquela escola importa para seu futuro enfrenta uma barreira dupla.
Por isso, melhorar o Ensino Médio exige começar antes. Precisamos fortalecer a aprendizagem nos anos finais para que os estudantes cheguem preparados para avançar e, ao mesmo tempo, criar condições para que conheçam suas possibilidades, reconheçam seus interesses e consigam visualizar caminhos para o futuro.
Isso significa agir tanto sobre aaprendizagem quanto sobre a permanência e a construção de perspectivas: identificar precocemente estudantes em risco de evasão, fortalecer estratégias de tutoria e recomposição da aprendizagem e criar, desde o Ensino Fundamental, espaços para que os jovens conheçam possibilidades de formação e trabalho. O desafio é fazer com que esse olhar deixe de ser pontual e passe a ocupar um lugar central nas políticas voltadas aos anos finais.
No fim, aprendizagem e propósito não são agendas concorrentes. São condições que se reforçam. Um jovem precisa dominar Português e Matemática para ampliar suas possibilidades, mas também precisa enxergar por que vale a pena continuar aprendendo. Precisamos garantir que ele chegue ao Ensino Médio preparado para avançar e com razões para seguir construindo sua trajetória.
Se queremos um Ensino Médio mais forte, precisamos parar de enxergá-lo como ponto de partida. Os anos finais do Ensino Fundamental não são um intervalo entre duas etapas: são um momento decisivo para garantir que o jovem aprenda, permaneça na escola e comece a enxergar um futuro possível.
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